- Escritora B. Pellizzer

quinta-feira, 9 de julho de 2020

 

Oi. Tudo bem? Eu tô na correria, sem tempo pra pensar nas coisas, sem tempo até pra te ver. Muita coisa aconteceu por esses dias: o cachorro morreu, não sei bem por quê. De repente ele começou a salivar e se escondeu. Quando não atendeu meu chamado, achei o bichinho já duro e frio; enterramos ele embaixo da jabuticabeira. A jabuticabeira tá bonita, o tronco já está cheio de caroços e, daqui a pouquinho, a gente vai poder colher. Você devia passar lá em casa, sempre gostou tanto de jabuticaba... Pedi um aumento essa semana, meu chefe disse que vai “analisar”... Sei bem o que ele vai analisar... Acho que vou precisar de um emprego novo, porque as coisas ficaram difíceis no último ano. As crianças estão bem, sempre perguntam por você e, toda vez que digo que estou vindo te visitar, elas colhem uma flor colorida no jardim. Toma! É pra você. Ah! O João finalmente pagou aquele dinheiro que ele tava te devendo. Coloquei no bolso daquela calça jeans rasgada que você gosta tanto, assim não tem chance de você não encontrar, sabe... para o caso de eu não estar por perto quando você aparecer. Eu sei, eu sei... eu bem podia ter trazido o dinheiro comigo, mas é que eu não tinha pensado em te ver hoje, tá mesmo tudo muito corrido, mas eu estava saindo com o carro e ouvi aquela música..., sabe?..., lembrei de você e não teve jeito, tive que passar aqui, só deu tempo de as crianças colherem a flor. E eu tenho que ir embora logo, meu chefe... sabe como é... acabei de pedir aumento, então tô na mira. Nossa! Mas eu não paro de falar! É bem típico de mim querer falar só dos meus problemas. Desculpe. Como você está?

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Ela encarou os olhos negros dele por uma vida, por todos os significados de vida, mas aqueles olhos negros não esboçaram emoção, e ela entendeu que, mais uma vez, não obteria qualquer resposta.
Usou as costas da mão para secar uma lágrima atrevida, beijou as pontas dos dedos e usou os dedos beijados para tocar o rosto estampado na foto da lápide. Quando deixou o cemitério, dirigiu com o som desligado, não queria que outra música a obrigasse a voltar.

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