Amor real - Escritora B. Pellizzer

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Amor real

 

Sou uma pessoa de amores passageiros e amizades duradouras. Meus melhores amigos, os conheci na adolescência e carrego comigo até hoje; muitos amores fizeram a transição de amor para amigo, mas o contrário não havia acontecido até o começo de 2018, quando comecei a namorar um amigo de vários anos.

 

No fim de 2018, meu ex-marido sofreu um gravíssimo acidente de moto. Lembro-me muito bem quando me ligaram do hospital: assim que a moça se identificou, dizendo de onde estava falando, eu nem deixei ela terminar a frase, já perguntei se ele estava vivo. Estava consciente o suficiente para desbloquear o celular e dar meu número de telefone. Entre o ser orientada pelo médico, saber que ele com certeza perderia uma perna e talvez um braço, esperar o dia amanhecer para avisar minha sogra, esperar na antessala cirúrgica, contar para minhas filhas sem poder prometer que o pai delas ficaria vivo, tentar recuperar a moto, tentar descobrir onde foram parar as coisas dele (roubaram tudo: roupas, presentes de natal, dinheiro), falar com gente de seguro e tentar fugir dos urubus do DPVAT foram mais de quinze horas, mas acreditem, valeram por sessenta.

 

Aquela cirurgia que não acabava nunca, depois o pós-operatório que não acabava nunca... e a incerteza? Senhor! A incerteza... “Foi tudo bem na cirurgia, mas não podemos prometer que ele vai sobreviver, tem que esperar o pós-operatório”; “Foi tudo bem no pós-operatório, mas não podemos dizer que ele vai sobreviver, tem que observar”. E a moto, e o seguro, e os caras do DPVAT... Sério, gente, por que fazem isso? E o plano de saúde, e a moto, e o seguro, e os merdas dos caras do DPVAT tudo de novo e de novo. Era um carrossel, toda hora as mesmas coisas, enquanto a gente só queria saber se ele ia sair vivo.

 

E eu ali, sem o direito de estar ali, mas falando com a Polícia Federal pra saber onde estava a moto; falando com os bombeiros para saber onde tinha sido o acidente para recuperar a bagagem; falando com plano de saúde para tomar decisões que eu não tinha o direito de tomar, tentando não mandar à m*rda um quarto ou quinto urubu do DPVAT.

 

Quando ele finalmente foi pro quarto, eu falei pra minha sogra que sabia que eu não tinha que estar ali, pedi desculpas por estar mentindo pra todo mundo que ele era meu marido ainda, mas que eu ia ajudar no que pudesse, e disse que depois ele podia vir pra minha casa porque eu sabia que seria difícil o cuidado nos primeiros dias por causa da falta da perna.

 

Muito gentil, minha sogra disse que eu tinha sim o direito de ficar ali e que era pra ficar porque ela precisava de ajuda.

 

Como boa imbecil que sou, eu fiquei. Digo imbecil, porque eu conheço muito bem meu ex-marido e sabia que boa coisa não sairia de todas as decisões que eu estava tomando naquele momento, sabia que aquilo tudo se viraria contra mim de alguma maneira.

 

Mas não é sobre isso que quero falar. Isso tudo estou contado pra contextualizar vocês do momento mental que eu estava quando, naquela noite, amontoada na cadeira do lado da maca enquanto meu ex-marido dormia, sem ter a certeza de que ele passaria por aquela noite, eu peguei meu celular para contar para meu ex-amigo-atual-namorado o que havia acontecido, e das promessas que eu havia feito. Vocês aqui o conhecem como ***, e estou contando esta história porque dezembro é o mês de eu contar histórias de amor.

 

Pois bem, depois de ler tudo o que eu havia escrito, *** perguntou como eu estava e se precisava de ajuda, eu disse que tudo bem e que ele ficasse tranquilo, mas que seria difícil de a gente se falar nos próximos dias.

 

Na segunda-feira, logo cedo, foi que o inferno começou: plano de saúde. Queriam transferir meu ex-marido para um hospital conveniado, fora do estado. Se ficasse aqui, o plano não se responsabilizaria, e ele seria operado (para não perder o braço) pelo SUS. Vocês não têm ideia do terror psicológico que é isso. As coisas que falam pra gente... Parece que a pessoa está condenada à morte se não tiver um bom tratamento médico, mas eles se recusam a dar um bom tratamento médico sem saber quem está tratando.

 

Eu sabia que o certo seria ele ser transferido de uma vez para operar aquele braço logo em vez de ficar esperando e correr o risco de perdê-lo. Os médicos não queriam operar porque, se ele tinha plano de saúde, podia ser operado com uma placa de qualidade superior, então ficavam me forçando a pressionar o plano para pagar a cirurgia; do outro lado, o plano não reconhecia o hospital nem os médicos como dignos de seus padrões e me pressionavam para pedir ao hospital que autorizassem a transferência.

 

Eu sabia o que era melhor, mas eu não tinha direito de tomar aquela decisão.

 

Minha sogra só me olhava.

 

Meu ex-marido falava, se mexia, olhava pra gente, mas não estava consciente de verdade. Estava confuso e grogue e não tinha memória de curto prazo; pior, não tinha consciência de que estava sem memória.

 

No final do dia, sem saber o que fazer, sem me achar no direito de tomar aquela decisão, eu parei do lado dele, expliquei a situação, perguntei se ele havia entendido o que eu estava falando, ele me olhou com aquela cara de “Meu Deus, como você é idiota” que ele sempre me olhava quando achava que eu tava fazendo pouco caso dele, eu tentei explicar que ele estava sem memória, sem entender o que estava acontecendo. Ele não acreditou. Mais uma vez, ganhei aquela olhada. Reforcei o quanto era importante aquela decisão e perguntei o que ele queria. Ele perguntou se a gente poderia ir junto se ele fosse transferido, eu expliquei que somente uma pessoa poderia ir, ele então me disse: “Eu não quero ficar sozinho no Natal, quero ficar aqui”. E foi quando eu embarquei e me enfiei 100% na missão de garantir que ele não fosse transferido e que o plano de saúde pagasse as despesas para ele ter a placa melhor.

 

Por esses dias, minha sogra e eu estávamos nos revezando: quando eu ficava no hospital, ela ficava com as crianças e vice-versa; quando eu não estava no hospital, tentava, em vão, colocar meu trabalho em dia para ter como pagar as contas do mês.

 

Meu namorado tinha sumido do radar.

 

Somente na quarta-feira, eu finalmente consegui conversar com o médico e entender de verdade aquela confusão toda e falar propriamente com o plano de saúde, fingindo que não tava me cagando de medo e — finalmente — garantir a não-transferência. Aquela pequena vitória me esgotou de tal forma que, quando eu desliguei o telefone, o ar começou a me faltar, e eu caminhei até a escadaria de emergência do hospital e me sentei lá, no escuro, respirando fundo e repetindo pra mim mesma que ia dar certo. Eu não dormia desde sábado, quando tinham me ligado do hospital, e aquela pequena conquista, de repente, me deixou muito cansada. Eu precisava dormir, e as meninas ficaram na casa da minha sogra com outra supervisão para que ela fosse para o hospital.

 

Quando voltei para casa naquele dia, meu namorado estava lá. Tinha vindo pra ajudar.

 

Baseada no meu relacionamento anterior, eu sabia que, quando um homem, sabendo o que ele sabia, viaja a quantidade de horas que ele viajou, esse homem faz qualquer coisa, menos ajudar.

 

Eu estava muito feliz, não queria que terminasse; mas eu já tinha embarcado no projeto, e não dormia havia dias, então, não lhe dei o benefício da dúvida e, assim que olhei pra ele, eu decidi que não me importava o que ele pudesse dizer, e que mesmo que estivesse magoado por eu estar com meu ex-marido, eu tinha que fazer aquilo. Antes de abraçá-lo, eu já estava lamentando ter que dizer adeus para aquela pequena felicidade.

 

Nem o deixei falar e já comecei a defender meu ponto de vista. Quando eu terminei de tagarelar, muito tranquilo, ele me disse: “Eu não vim cobrar nada, nem pedir nada. Ele é o pai das tuas filhas, eu não esperava menos de você”.

 

Palavras da salvação.

 

E eu finalmente desabei.

 

Sentada no colo dele, chorei de forma quase vergonhosa. Por cansaço, por alívio, por medo. Por tudo. Em algum momento eu dormi ali, sentada, em cima dele. E ali fiquei até que acordei com o pesadelo que me acompanharia por muitos meses. Só então nos deitamos, e ele cantou até que eu voltasse a dormir.

 

Quando voltei pro hospital, ele limpou a casa inteira. Inteira mesmo. Chão, banheiros, janelas. Até limpou as persianas.

 

ELE

LAVOU

MINHA

ROUPAAAA

 

Comprou um chuveiro para instalar no banheiro secundário, porque a porta do banheiro principal era muito estreita para a cadeira de rodas passar; alimentou os animais; ele até começou a construir uma rampa para a cadeira de rodas.

 

Quando eu cheguei em casa e encontrei tudo arrumado, com a comida pronta e o café feito, eu só queria abraçá-lo, mas ele não havia sido apresentado pras minhas filhas como namorado ainda, e não seria naquele momento que isso aconteceria. Não sei como é pra vocês, mas, pra mim, é Igreja e Estado. Minhas filhas são sagradas. Naquela noite, entretanto, eu precisei fazer muita força pra manter minha convicção.

 

Por dias, parecíamos dois adolescentes: quando as crianças dormiam, ele entrava, ficava comigo e ia antes de elas acordarem. No resto do tempo, ficava num hotel não muito longe da casa. Houve uma noite em que, exaustas, as meninas se recusaram a viajar até a casa da avó (é numa cidade vizinha) e pediram para ficarem sozinhas. Era minha noite de hospital e, apesar de minhas filhas já serem adolescentes, é claro que eu fiquei com medo. Então ele dormiu num carro alugado, em frente do portão, para garantir que tudo estaria bem.

 

Vocês têm ideia do quanto é maravilhoso poder contar com alguém assim?

 

Depois que ele chegou, os dias começaram a passar muito rapidamente e, quando eu tive certeza de que o plano de saúde pagaria a cirurgia, finalmente me senti livre para voltar pra casa, e minha sogra assumiu tudo sozinha. Passou ainda várias semanas no hospital com meu ex-marido, mas num quarto particular, podia dormir na horizontal.

 

Assim que voltei pra minha casa, meu namorado também voltou pra casa dele. O cachorro que mora comigo ficou tão deprimido quando ele foi, que só voltou a comer depois de ouvir a voz dele por telefone.

 

Mesmo longe, depois de aprender que eu acordava na mesma hora, todas as noites, por culpa do mesmo pesadelo, ele me ligava e cantava no telefone pra eu voltar a dormir. Depois de um tempo, meu subconsciente fez a ligação e, quando eu acordava pelo pesadelo, a voz dele surgia na minha mente e eu voltava a dormir.

 

Até hoje, toda vez que temos uma discussão, por qualquer motivo que seja, eu me lembro daqueles dias e penso na sorte que eu tenho por ter sido brindada com esse tipo de amor.

Ele ganha todas as brigas.

 

E temos seguido assim: quando ele está mal, eu estou lá por ele; quando eu estou mal, ele está aqui por mim. De verdade. Ajuda real. Pelos breves períodos em que estamos mal, todo o resto é nada, e existimos nós, cuidando um do outro.

 

É esse tipo de amor que desejo a cada um de vocês, porque é esse tipo de amor que é real pra mim.

 

É esse tipo de amor que eu desejo que cada um de vocês seja capaz de dar.

 

Esse tipo de amor deve ser correspondido em igual medida de doação.

 

E este é meu desejo de Natal: que cada um de vocês tenha um *** para chamar de amor, de amigo, de parceiro, do que seja, desde que vocês tenham um.

 

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Desculpem o texto enorme, mas é minha mais bela história de amor. 


 Se você leu até aqui, parabéns! Você acabou de ler 2.000 palavras. São sete páginas de um livro. Lembre-se disso quando pensar que não gosta de ler.


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