Ser mãe é dureza - Escritora B. Pellizzer

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Ser mãe é dureza

 

Tenho uma tradição de aniversário com minhas filhas: não fazemos festa, mas temos o dia do desejo realizado. Basicamente, pela grande proeza de permanecerem vivas por mais um ano, no dia do aniversário, cada uma delas se transforma na Mega Uber Rainha Universal do Mundo Mundial e tem seus desejos atendidos. Claro, dentro dos parâmetros legais, constitucionais e financeiros.

 

Se não é contra a lei, se não atenta contra a Constituição e se eu posso pagar, elas têm.

 

É aniversário, sim, mas já serve como aula de Educação Moral, Cívica e Financeira, tudo junto.

 

Elas adoram.

 

Em geral, não traz grandes prejuízos, eu passo horas cozinhando tudo o que elas podem imaginar que querem comer; depois, nós passamos a semana inteira vivendo de sobras.

 

Mas aí existe a minha filha mais nova. Acho que a maior frustração da vida dela é ter nascido hmm... fofa. Sério. Ela é miúda, esguia, tem mãos pequenas de dedos longos com unhas que ela gosta de manter compridas; os cabelos também são compridos, e Deus te ajude se você sugerir “tirar as pontinhas”. Tudo nela grita Princesinha da Disney. E ela odeia. Ela quer ser malvada, quer ser o Grinch, o Hannibal Lecter, o bicho-papão. Mas a gente olha pra ela e pensa “Ownnn, mo deuso, que coisa querida! Olha como ela fica linda quando tá brava!”

 

Claro que a personalidade da mocinha nada tem a ver com as princesas da Disney ou de qualquer outro reino conhecido, mesmo que o máximo de rebelião percebida em sua arte seja os desenhos de gatinhos fofos com dentes e enormes e chifres pontudos. Sim. Até os desenhos dela são malvados e fofos ao mesmo tempo.

 

Para tentar ficar menos fofinha, ano passado ela “goticou”, entrou numa de vestir preto e, no dia Mega Uber Rainha Universal do Mundo Mundial, ela pediu um soco-inglês, que a louca da mãe dela deu, juntamente com batom preto, esmalte preto, e uma camiseta preta de estampa perturbadora; de quebra, ainda levou um tabuleiro Ouija (que nós vamos usar para nos comunicarmos com o Espírito do Natal este ano) e um diabinho vermelho de pelúcia, que ela diz que é uma vaca e se chama Davi, presentes de um casal de amigos meus.

 

Este ano ela relaxou no gótico — mesmo que durma com Davi todas as noites e coloque o soco-inglês embaixo do travesseiro sempre que escuta um barulho estranho na casa —, então eu pensei que não precisaria pensar em nada tão perturbador como outra arma branca para minha filha de 14 anos.

 

Tava sossegada, pensando que eu só precisaria cozinhar, quando ela decidiu que queria comer...

 

Preparem-se...

 

Um escorpião

 

Isso mesmo

 

No dia do dia mais mega-ubérico do ano, ela só quer comer um escorpião.

 

Depois de engolir a minha bílis, eu falei que tava fora do orçamento, ela perguntou o porquê, e eu respondi que não tinha dinheiro para pagar a viagem até a China, então ela suavizou os padrões: podia ser outro inseto, outra comida esquisita qualquer, só tinha que ser diferente.

 

O meio-termo: gafanhotos.

 

E eu pensei: ok, eles estão invadindo o país mesmo. Estão vindo aos montes da Argentina. Gafanhoto com sotaque espanhol. Por que não?

 

Nunca fiquei tão feliz por conhecer tanta gente.

 

Meus amigos se empenharam na missão. Teve gente que mandou receita de gafanhoto, teve gente que me recomendou farofa de formiga, teve gente que conhecia um cara, que conhecia um cara, que tinha um primo que criava larvas para pratos exóticos. Chegou num ponto que até eu já queria comer aquilo lá.

 

Planejei até as fotos para o Instagram: “olha que mãe excelente eu sou: assei um bicho nojento pra minha filha comer”.

 

Cardápio feito, insetos e larvas providenciados, juntamos tudo no carro de um amigo argentino que estava vindo passar uma temporada nas praias catarinenses. E eu aqui, toda pimpona pensando: “Eu não acredito que deu certo!”

 

É... não deu...

 

No meio do caminho tinha uma polícia rodoviária; tinha uma polícia rodoviária no meio do caminho.

 

Cêis acreditam que precisa de autorização pra transportar inseto???

 

Bom... talvez se os insetos tivessem sidos abatidos antes não houvesse problema, mas os pobres estavam confinados em garrafas e vivinhos da silva. Não entraram no estado.

 

Quando meu amigo ligou avisando que a carga havia sido apreendida, eu dirigi até o posto de polícia mais próximo de mim pra tentar uma comunicação, tentar pedir pelo amor paternal, rogar pelo espírito natalino, qualquer coisa.

 

A cara do policial quando eu expliquei que aqueles insetos eram o presente de aniversário da minha filha não teve preço.

 

Sério.

 

No fim, eu acho que ele pensou que ninguém inventaria uma história tão ridícula, e realmente tentou me ajudar a recuperar o contrabando, mas não teve jeito. Meus bichinhos provavelmente foram incinerados e agora estão no céu dos insetos denunciando meu karma que está prejudicado pelos próximos 15 anos.

 

Este ano, não vou conseguir cumprir minha missão.

 

Contei pra ela o que havia acontecido e pedi um plano alternativo, e ela se contentou com cozinha estrangeira. De novo o diferente.

 

Vamos de festa mexicana.

 

E lá fui eu de novo. Tenho incontáveis receitas de tortillas de todas as mães de amigos que fazem a melhor tortilla do mundo. Juro, todas as receitas são iguais, então quando for dar o retorno vou poder dizer satisfeita: “sim, eu escolhi a da tua mãe, você tinha razão, é a melhor”; os tamales já vão ser mais complicados. Minha geladeira está apinhada de pimenta e, se tudo der certo, vai ter copinho de tequila cheio de guaraná Kuat para a experiência completa. Só me falta o abacate para a guacamole, o sombreiro (que eu já desisti de conseguir) e, claro, a piñata.

 

Não existe aniversário mexicano sem piñata.

 

Dessas eu também recebi muitas receitas de como fazer, e agora estou aqui, com um balão gigantesco que é a base da coisa.

 

O problema

 

Não riam...

 

Eu tenho medo de balões.

 

Tá... podem rir.

 

Não sei o que é, me dá agonia, eu vou enchendo e parece que meu medo vai se inflando junto, começa a me bater um desespero de que aquilo vai explodir na minha cara... eu não consigo... simplesmente não consigo.

 

Meu nome é Betti Pellizzer, e eu tenho medo de balões coloridos.

 

O aniversário dela é dia 28, então eu tenho cinco dias para fazer a tal piñata, por isso, logicamente, estou aqui escrevendo textinho pro Facebook em vez de ir até a casa vizinha e implorar que alguém encha um balão pra mim.

 

Imagina a marmanja aqui, chegando com um balão rosa na mão, pedindo pra encher porque ele me dá medo... Pois é...

 

Ser mãe é dureza...

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