Amor virtual - Escritora B. Pellizzer

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Amor virtual

 





Haviam se conhecido pela internet. Moravam um em cada continente. Não planejaram o futuro que ganharam, simplesmente aconteceu.

Aconteceu depois de horas infinitas de conversas, depois de linhas incontáveis de mensagens; aconteceu depois de uma quantidade impossível de ser numerada de emoticons. No começo, eram carinhas felizes, depois vieram os corações vermelhos e, sem nem perceberem, começaram a trocar carinhas safadas.
Quando o inevitável também aconteceu, e eles cruzaram o mar para se colocarem frente a frente, descobriram, um do outro, aquilo que nenhuma mensagem ou videochat poderia contar.
Ela precisava do silêncio e era silenciosa; quieta como uma capela mortuária; quieta até como os defuntos da capela.
Ele? Ele era o trovão que rasgava a noite e anunciava a tempestade, ele era a própria tempestade e, quando passava, não podia ser ignorado. Falava alto, ria alto, comia alto. Batia todas as portas, estralava todas as juntas, arrastava todos os copos.
Ele era limpo e organizado. Era limpo como uma sala esterilizada, organizado como a tabela periódica; de fato, se lhe fosse permitido, trocaria o Carbono de lugar com o Oxigênio. Tinha uma opinião sobre tudo. Ela? Ela nem se lembrava da última vez que havia pegado uma vassoura nas mãos. Era bagunçada como um furacão. Ela era o próprio furacão e, quando passava, deixava um rastro de xícaras sujas de café, livros abertos, e migalhas de biscoito.
Ele a enlouquecia.
Ela o enlouquecia.
Mas quando estavam juntos, e todas as diferenças eram esquecidas, mergulhavam nos olhos castanhos um do outro.
E eles se enlouqueciam.
Ela amava o fato de ele olhá-la sempre nos olhos, não importava como, não importavam as posições de seus corpos nos mais estranhos ângulos que o amor os obrigava a assumir; de alguma maneira, aqueles olhos estavam sempre lá, fixos nos dela, como se vasculhassem sua alma. Quanto aos olhos dela, ficavam distraídos demais varrendo o corpo dele, tentando entender como era possível que cada pelo daquele corpo fosse louro, mas ele tivesse cabelos escuros.
Ele amava o fato de ela estar sempre sorrindo; até quando zangada, ela sorria. E quando chorava — de emoção, alegria, ou raiva, Deus! como ela chorava por causa da raiva! —, as lágrimas corriam por suas bochechas e sempre morriam naquele sorriso, o sorriso que nunca cessava. Quanto ao sorriso dele, sempre ficava maior quando a via chegar, e ele não conseguia entender como era possível uma mulher de roupa amassada e cabelos despenteados ser tão devastadoramente bela.
Quando a separação era inevitável, e cada um voltava ao seu próprio lado do mar, ela sentia falta do barulho, ele sentia falta da bagunça.
Pelas manhãs, ela comia torradas apenas para ouvir o próprio mastigar; pelas noites, ele espalhava livros pelo chão do quarto para que pudesse tropeçar quando levantasse no meio do sono.
Era então que a saudade os enlouquecida e, enlouquecidos, buscavam seus celulares.
Pela tela, ele a olhava nos olhos.
Ela?
Ela sorria.

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