Divagações de escritor - Escritora B. Pellizzer

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Divagações de escritor


 

Vez ou outra eu sou tomada por umas piras de que sou capaz de me comunicar com o Universo através da natureza. É um tipo próprio de meditação que não necessariamente está listado nos ensinamentos Rosacruz. Visualizo minhas frustrações sendo carregadas pelo vento; sento-me debaixo do sol enquanto sinto o calor penetrar nos meus poros e expulsar as doenças pelo suor; permito que a chuva me lave internamente.

 

E quando a natureza se enfurece, ah!, eu acho lindo!

 

Não que eu aprecie as consequências da fúria, mas enquanto ela está furiosa, é como nosso tipo particular de batalha, somos eu e a natureza. Ela declarando que sou uma intrusa em seu mundo enquanto eu berro de volta que aceito a batalha e mando vir mais. E quando a fúria cessa, e eu continuo aqui, a invasora, não intacta, mas vitoriosa, sinto-me poderosa.

Venci o vento.

É uma loucura muito boa pra mim se querem saber. Uma catarse.

 

Recentemente e não conscientemente, minhas filhas se juntaram a mim nesse ritual de guerra. Digo “não conscientemente” como uma suposição, mas não tenho como saber o que elas pensam enquanto guerreiam. Talvez nem estejam guerreando, talvez estejam amando. Não vou perguntar.

 

Então, quando o tornado atingiu Santa Catarina no ano passado, a gente não sabia que era tornado, a gente somente viu o céu encoberto por nuvens densas, baixas, de cor cinza-escuro que, a despeito da velocidade do vento, moviam-se mansamente, como em uma marcha hipnótica. E a gente olha para elas sabendo que são perigosas, mas elas se aproximam tão devagar, que é imperativo desafiá-las, ficar um pouco mais, esperar que estejam mais perto antes de começarmos a temê-las. Por isso, enquanto o vento açoitava a goiabeira fazendo com que se envergasse até que o galho mais alto atingisse o chão, nós três nos revezámos nos galhos, esperando que, quando a árvore, lutando contra a força do vendaval, voltasse para o alto tirasse nossos pés do chão ao mesmo tempo em que o vento chicoteava nossos corpos, bagunçava nossos cabelos e a garoa fina umedecia nossos ânimos e almas. Não tinha luz, não tinha internet, havia apenas o vento, a goiabeira e nós três.

 

Que tarde aquela!

 

No final do dia, quando comecei a ver as notícias e entendi o que havia acontecido, o estrago que havia sido, fui invadida pela culpa. Uma culpa irracional. Uma culpa que vem do condicionamento de anos e que nos impede de aproveitarmos nossas bênçãos quando há tanta miséria ao redor. Me senti culpada por ter aproveitado do vento que tanto estrago havia causado, ainda que eu não tivesse sido responsável pela ventania.

 

Insanidade.

 

Passaram-se as semanas e veio a chuva, a chuva forte, daquelas que lavam e carregam tudo ao redor, daquelas que simulam rios. Estava tão quente naquela noite. Não chovia havia tanto tempo, e era tanta água, tão tentadora, tão convidativa...

 

Não, não resistimos.

 

Era quase meia-noite, mas estávamos lá, no quintal, rodopiando embaixo do chuveiro celeste, comemorando a vida da água que inunda e lava; que arrasta e dissolve; que afoga e batiza como se fosse a transfiguração do princípio religioso mais básico: o renascimento que vem depois da morte. Era um milagre, e estávamos desfrutando dele.

 

Que noite aquela!

 

No dia seguinte, as notícias denunciavam as enxurradas, os deslizamentos, as mortes. Em mim, novamente a culpa. Culpa por ter pedido por mais água, culpa por estar segura quando tanta gente não esteve, culpa por ter rido enquanto tanta gente chorava.

 

A culpa é uma âncora que amarram em nossos pés tão cedo quanto aprendemos a estender as mãos para tentar tomar o que queremos.

 

Insanidade.

 

Chove agora.

Aqui, o rio já passa dos cinco metros e é provável que as famílias que moram perto do rio precisem deixar suas casas, de novo.

 

Eu?

Ontem à noite, enquanto a chuva caía, pemitia-me ser banhada pela água enquanto, nos meus fones de ouvido, Dana Glover, com sua voz macia, cantava, numa tradução livre: “É, eu acho que é assim que tem que ser, é muito bom sonhar dias chuvosos. Eu posso ouvir o que dizem, mas não posso sentir sua alma. As pessoas dizem que as marés estão mudando, mas nada parece mudar, e quando eu sintonizo o rádio a dor ainda é a mesma”.

 

É... eu acho que meu celular já sabia que a culpa viria, mas talvez seja assim que tenha que ser e, ainda citando Dana Glover na mesma música, “eu não posso esperar que o mundo pare de girar apenas para me ouvir”, então, por que a chuva o faria?

 

É assim que tem que ser...

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