Espelho da vida - Escritora B. Pellizzer

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Espelho da vida

espelho da vida escritora b. pellizzer


Na hora da morte, é preciso que haja ao menos um espelho em frente para que a gente não se sinta terrivelmente só.
Para que a gente possa se mirar durante a agonia e ensaiar a cara post mortem que mais combine com nosso melhor traje. Aquele traje de domingo com que gostaríamos de ser enterrados.
Um espelho em que a gente possa apreciar a beleza do sofrimento e eternizar, na retina, a última expressão de dor. Aquela que será contínua, aquela que será eterna. É com essa cara de dor que chegaremos ao paraíso.
Um espelho que duplique o adeus e, de certa forma, prolongue o viver, sendo o duplo de nosso ser moribundo. Espelhos múltiplos para multiplicar o pouco tempo de vida que nos resta.
Um espelho por onde nossa alma descarnada possa se mirar e, quem sabe, num átimo, decidir voltar para o corpo morrediço.
Um espelho em que a gente possa ver além de nós mesmos e, antes daquele último suspiro, agarrar o cordão de prata do espírito, que se distraiu com a própria imagem, e puxá-lo de volta para aquela que deveria continuar sendo sua única morada.
Ou talvez, usar o cordão de prata ao redor do pescoço.
Primeiro, como adereço. Para ficar melhor na foto do velório. Depois, como instrumento a fim de abreviar a dor.
Causa da morte: enforcamento pelo cordão de prata da própria alma.
Poderia isso ser considerado suicídio?
Se assim for, que haja, no Umbral, outro espelho para que não tenhamos que encarar nossos espíritos semelhantes.
Que a frequência umbralina habitada por nós, da Irmandade do Suicida do Cordão de Prata, seja uma casa de espelhos onde nos miremos enroscados pelos cordões de prata de nossos espíritos, e estes, pelos cordões de prata de seus próprios espíritos, até que a última célula prateada seja eliminada e jogada no umbral do umbral do umbral de um universo infinito multiplicado por tantos espelhos.
Na hora da morte, é preciso que haja ao menos um espelho...
Mas que bobagem!
Na hora da morte, a gente sempre está só.

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