Numa eternidade qualquer - Escritora B. Pellizzer

domingo, 17 de janeiro de 2021

Numa eternidade qualquer

Símbolo do infinito sobre fundo preto


Num cruzamento qualquer, de uma avenida qualquer, em um dia normal, tão normal quanto qualquer outro, seus olhares se cruzaram.
Não pareceu especial quando aconteceu.
Ela estava do lado direito, ele estava do lado esquerdo. O semáforo fechou para os carros. Caminharam, um em direção ao outro: pedestres quaisquer. Ele sentiu o perfume dela; ela notou a pequena cicatriz na sobrancelha dele.
Ele pensou em mistério; ela pensou em traquinagens infantis.
Ele gostava de mulheres que usavam perfumes florais, e pensou que aquele cheiro combinava com ela; ela gostava de homens com cicatrizes, e pensou que aquela marca, logo acima do olho direito, o fazia másculo.
Pensamentos são engraçados: volitam em nossas cabeças todos ao mesmo tempo, em turbilhão, não se sabe onde nascem ou quanto tempo duram, mas as mãos dos caminhantes se roçaram sobre a faixa de pedestres, e aquele momento pôde ser medido em eternidades.
Ao alcançarem a calçada — ele do lado direito, ela do lado esquerdo — ambos se viraram.
Ele sorriu.
Ela corou.
Ele pensou em voltar e se apresentar. Ela virou as costas e partiu.
Ela chegou ao trabalho para mais um dia qualquer, não mais pensou no eterno que sentiu ao tocar a mão do estranho, mas seu peito carregou — por todo o dia — um vazio. Como se faltasse alguma coisa.
Ele chegou ao trabalho para mais um dia qualquer; ainda dedicou algum tempo para pensar na moça de perfume floral e bochechas coradas, mas logo se perdeu em ocupações. Ao final daquele dia, descobriu-se sentindo saudades, só não sabia de quê.
Naquela noite, ele sonhou com ela.
Ela sonhou com um menino que havia cortado a sobrancelha ao cair de cima de um muro.
Ele não se lembrou do sonho no dia seguinte; ela também não.
***
Em um cruzamento qualquer, de uma avenida qualquer, de qualquer cidade, dois pedestres quaisquer — ele do lado esquerdo, ela do lado direito — cruzaram seus olhares.
Ele sorriu pensando em seu perfume; ela se surpreendeu ao pensar em um menino com o rosto ensanguentado.
O semáforo demorou muito tempo para ficar vermelho. Um tempo que só pôde ser medido em eternidades.
Ele caminhou em direção a ela.
Ela tentou não caminhar em direção a ele.
Seus olhos se cruzaram sobre a faixa de pedestres.
Ele disse oi.
Ela baixou a cabeça.
Ao alcançarem o outro lado da calçada — ele do lado direito, ela do lado esquerdo —, viraram-se.
Ele acenou.
Ela sorriu.
***
Em um cruzamento qualquer, de uma avenida qualquer, em um dia cheio de expectativas, dois pedestres apaixonados — ele do lado esquerdo, ela do lado direito — cruzaram sorrisos.
Ela tinha colocado um vestido que valorizava a cintura; ele usava uma camisa de botão e tinha gel nos cabelos.
Caminharam um em direção ao outro. Ao se encontrarem, sem saber o que dizer, ele desviou para a esquerda, ela para a direita, e se encontraram mais uma vez.
Ele pediu desculpas.
Ela disse: “Tudo bem!”.
Ela notou o sorriso dele.
Ele imaginou aquela voz lhe desejando uma boa noite depois do amor.
Seus olhos se encontraram e se notaram, suas pupilas dilatadas mergulharam uma dentro da outra: um segundo medido em eternidades. As irises dela tinham pontinhos verdes. Os olhos dele eram negros como o pecado.
Ao alcançarem a calçada — ele do lado direito, ela do lado esquerdo — ambos se viraram.
Ele deu um passo em direção a ela; ela esperou.
Ele correu. Ela se alegrou.
O semáforo abriu.
Ele nem percebeu. Ela se assustou.
Em uma esquina qualquer, que ficaria marcada na eternidade da história de dois pedestres quaisquer — ele do lado esquerdo, ela do lado esquerdo — duas mãos direitas se encontraram em um cumprimento.
— Oi.
— Oi.
Ele sorriu. Ela também.
Ela lhe deu seu telefone. Ele ligou.
Os dois foram a um cinema qualquer, assistir a qualquer filme, em companhias especiais.
***
Em um cruzamento qualquer, de uma avenida qualquer, em qualquer cidade, um casal de pedestres qualquer, fazia seu trajeto de mãos dadas, todos os dias, como se fossem dias quaisquer.
Às vezes, iniciavam o cruzamento do lado esquerdo; às vezes do direito; e aquelas esquinas acumularam mais um amor qualquer, sem qualquer importância para os que por ali passavam todos os dias em sua apressada rotina, sem desconfiar que, num dia qualquer, um casal de pedestres havia iniciado, ali, uma história de amor medida em segundos eternos.
***
Em uma igreja qualquer, de uma cidade qualquer, em um dia cheio de promessas, dois amores se aceitaram para construir uma vida eterna qualquer. Construíram sua casa em uma esquina porque era assim que tinha que ser, e depois de muitas petições, alegando pouca segurança no tráfego, conseguiram que a Prefeitura instalasse ali um semáforo qualquer, apenas como lembrança daquele amor especial.
Todas as manhãs, ela olhava para ele.
Todas as noites, ele agradecia a Deus por ela.
Todos os dias, os dois trocavam beijos quentes.
***
Até que chegou o dia em que os beijos deixaram de ser quentes e viraram beijos quaisquer.
Ele pensou que tinha se casado muito cedo.
Ela se frustrou com a frieza dele.
Em um dia qualquer, um casal qualquer saiu de casa para o trabalho depois de uma briga, e não uma briga qualquer.
Ele disse basta.
Ela chorou.
Ele foi para o trabalho.
Ela ficou para fazer as malas dele.
***
Em um cruzamento qualquer, de uma avenida qualquer, em uma cidade qualquer, um casal muito triste — ele do lado esquerdo, ela do lado direito — cruzou olhares perturbados.
Ele se lembrou da moça com perfume floral — nunca mais tinha parado para sentir o bom cheiro de sua mulher.
Ela se lembrou da pequena cicatriz — nunca mais tinha olhado para os olhos de seu marido.
Duas epifanias que duraram um tempo que só pôde ser medido em eternidades.
Sobre uma faixa de pedestres qualquer, um casal qualquer virou notícia ao trancar todo o trânsito de uma avenida qualquer para um beijo de reconciliação especial.
Ela disse que o amava.
Ele disse que morreria por ela.
***
Depois de uma eternidade qualquer, um casal qualquer olha um álbum de fotografias cheio de recordações, enquanto o Universo contempla, do alto, o teto de uma casinha qualquer, que abriga o amor de um casal qualquer na enormidade do Cosmos.

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