Prendam suas cabras, porque meu bode está solto - Escritora B. Pellizzer

domingo, 3 de janeiro de 2021

Prendam suas cabras, porque meu bode está solto


 

Sempre fui uma cabritinha muito faceira; pra mim, o mundo era um quintal sem porteiras. A maternidade me fez sossegar, não porque eu tenha deixado de acreditar na liberdade, mas porque eu passei a ser responsável por outras duas pessoas, e isso exige um grau de comprometimento. As minhas duas pessoas, entretanto, estão crescendo e, quanto mais perto da independência estão elas, mais perto da liberdade estou eu e, confesso, já voltei a balir e sacudir meu rabinho aqui e ali conforme as algemas da maternidade vão se afrouxando.

 

Sendo uma cabritinha alegre que viajava muito e tinha uma tendência patológica a trabalhar até tarde, eu tive meus problemas.

 

A liberdade, como qualquer outra coisa que vale a pena, tem seu preço.

 

Perdi a conta de quantas vezes fui assaltada: em algum momento, a habilidade de ser assaltada com o menor trauma possível meio que se transformou no meu superpoder, e eu aprendi a negociar documentos e dinheiro pra condução; também aprendi a antecipar o assalto, mas, acreditem, é uma habilidade inútil, já que nem sempre você consegue evitar mesmo sabendo que vai acontecer.

 

Também perdi a conta de quantas vezes fui apalpada, assediada, chamada de louca por meter a mão na cara dos idiotas que me apalpavam. Eu tenho um dente desalinhado na frente que eu digo pra todo dentista que se preocupa com gengivite, que eu consegui em um acidente de carro, mas que, na verdade, eu ganhei numa briga com um tipo que achava que uma mulher sozinha, bebendo uma cerveja gelada durante uma noite quente está — com certeza — procurando companhia. Que noite aquela!

 

No meu mundo ideal, aquela noite deveria terminar como terminaria a do Van Dame: o macho escroto atirado no chão, derrotado, enquanto o garçom enchia meu copo com mais cerveja gelada. Então eu beberia um gole da cerveja, sorriria e soltaria alguma frase de efeito espirituosa. Flash. Corta para o ambiente externo. Fim da história.

 

Mas eu não sou o Van Dame, e aquela noite terminou como várias outras: com alguém me perguntando o que eu estava fazendo sozinha, naquele lugar, àquela hora da noite. Terminou com alguém dizendo que a culpa era minha.

Mesmo quando eu era assaltada, quando fazia o registro da ocorrência, a pergunta era sempre a mesma: Por que você estava sozinha a essas horas?

Não importava se eu tava saindo do trabalho, o que quase sempre era o caso; não importava se o bar onde eu tinha parado pra tomar a cerveja e comer uma batata ficava na frente do hotel onde eu estava hospedada; não importava nada, porque nada justificava o fato de eu estar sozinha — pobre de mim — e desprotegida durante a noite.

 

Não, eu não era o Van Dame, eu era uma cabra e deveria estar presa.

 

Claro que isso não me impediu. Nunca. Acumulei muitas histórias, amores, amizades, hematomas, saudades, mas jamais permiti que incidentes isolados tirassem minha liberdade. E mesmo que eu acumule um histórico bastante “emocionante”, a verdade é que eu tenho mais comédias do que tragédias para narrar.

 

Por que estou brincando de lembrar dessas coisas?

 

Esta manhã, vi uma manchete online denunciando que uma menina de 13 anos havia sido ameaçada e estuprada. Na rua. Durante o dia. Vou repetir: 13 anos.

 

Não li a matéria; esse tipo de conteúdo me faz mal, não gosto. Mas passeei pelos comentários e, ali, eu vi o retrato cruel da cultura do curral das cabras: “O que uma menina de treze anos estava fazendo sozinha na rua?”, traduzindo para a linguagem da família tradicional: “Por que não prendeu sua cabra?”.

 

Sério.

 

Ela tem 13 anos, não treze meses. Sabe sair sozinha de casa e tem o direito de fazê-lo. Tem o direito de ir sozinha até a padaria, ao supermercado, à escola, à casa da amiga ou a lugar nenhum (que se dane!) ela tem o direito de colocar o pé na rua sem ser violada.

 

Que mundo é esse onde uma menina de 13 anos é estuprada, e a culpa é transferida para a mãe por deixá-la sair de casa?

 

Até quando vamos permitir que nos digam o que podemos fazer, como fazer e com quem fazer?

Até quando vamos aceitar levar a culpa por más ações que não foram nossas?

Até quando vamos dizer às nossas filhas que elas não são capazes de sair, se divertir, de viver e trabalhar sem alguém que as defenda?

Até quando vamos repetir e repetir que as mulheres são incapazes?

 

Não somos!

 

Se aquela menina de treze anos soubesse que não era culpada pela ousadia de sair sozinha na rua, talvez tivesse clamado por seu direito e gritado, ou corrido, ou pedido ajuda, não sei. Mas disso eu sei: ninguém consegue fugir de um fardo de culpa firmemente plantado em cima dos ombros.

 

A gente cresce ouvindo: não saia sozinha; se te atacarem, não lute; não provoque, não sente de perna aberta, não sorria, não fale alto, não chame a atenção, não, não, não e não... tudo é não. Somos programadas para precisarmos ser defendidas, algumas de nós achamos até bonito exercer o papel de donzela indefesa e, como boas donzelas, devemos fazer nossa parte e facilitar o trabalho do príncipe ficando quietinhas na torre do castelo.

 

Até quando?

 

O que ela estava fazendo na rua sozinha?

 

Estava vivendo.

Não compactue com os e as canalhas que dizem que ela não pode.

 

A pergunta que deve atormentar e mobilizar cada um de nós é: “o que um estuprador estava fazendo na rua?”

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