Ela sabia viver - Escritora B. Pellizzer

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Ela sabia viver

 

Pilha de envelopes coloridos

Ah, ela sabia viver!

Talvez não aos olhos dos puritanos, dos defensores da família, daqueles que apreciam a ordem conhecida, mas, por Deus!, aquela menina sabia viver.
Às vezes chegava a se perguntar se a vida que levava era a certa, afinal, não eram poucas as críticas que ouvia, mas a alegria que carregava para os seus dias a fazia continuar e continuar e continuar.
Na dúvida, dizia sim.
Quando adoeceu do corpo, chegou tão perto da morte que pensou estar doente da mente.
Olhou ao redor, para sua casa bagunçada, para suas finanças destruídas, para o contato de emergência que não havia em seu telefone, e pensou que tinha feito tudo errado, mesmo que tivesse sido feliz, só lamentava que seu corpo sem vida fosse se transformar em fonte de tanto trabalho. Ela nunca havia gostado de ser um fardo.
— Senhor, por favor, não peço que me poupe, apenas que me dê mais uns dias para eu fazer tudo certo.
Quando acordou na manhã seguinte, sentia-se energizada; não fosse o cansaço inexplicável e o ardume nas juntas, dir-se-ia curada. Sabedora de que aquela era a chance pela qual havia pedido, vestiu-se de disposição e foi ser normal.
Ao final do oitavo dia, porque, afinal, ela não era Deus e apenas na hora da morte havia passado a acreditar em um, olhou ao redor satisfeita. Suas contas estavam pagas, sua casa estava limpa, suas garrafas de bebida não haviam ficado nas prateleiras, e suas gavetas não mais abrigavam quaisquer objetos que pudessem macular sua memória.
Sobre a mesa imaculada da cozinha, um envelope branco com instruções para seu enterro e alguns outros procedimentos de gente normal.
Tinha vivido perdidamente, mas deixaria a lembrança da redenção: o melhor de dois mundos.
Sessenta e cinco anos depois da manhã em que havia esperado não acordar, o envelope já não é mais branco, mas continua sobre a mesa imaculada. Ao comemorar seu aniversário, o de número oitenta e sete, olhou para seu mundo ordenado, para os amigos polidos que lhe estendiam congratulações polidas, para as janelas transparentes e entendeu que, havia muito, não vivia.
Lembrou-se que seu carro sempre limpo ostentava um absurdo crucifixo pendurado no retrovisor, e de todas as coisas equivocadas em seu universo normal, foi aquela a que mais a atingiu. Havia se apegado aos deuses de barro e ao que seus seguidores diziam ser certo, e se esquecido do deus maior: ela mesma.
Entendeu que tinha deixado de viver na noite em que não morreu.
Quatro dias depois da epifania crucifixal, sua preocupada família a encontrou em um lugar considerado tão indecente, que não tiveram coragem de revelar aos amigos polidos mais próximos.
Tudo o que se ficou sabendo é que, sobre toda a indecência que rodeava seu corpo já teso, pairava a aura do sorriso eternizado em seu rosto.
Um sorriso que seu marido jamais havia visto.
O sorriso que denunciava a vida plena que havia vivido, mesmo que por apenas quatro dias.

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