Livro sem nome - Escritora B. Pellizzer

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Livro sem nome


 

Sempre que eu assistia a algum filme em que a personagem sabia que morreria, mas seguia em frente e perseguia a morte, eu ficava me perguntando como era possível.

O que leva alguém a desafiar seu instinto mais primitivo?
Que coisa pode mover alguém na direção contrária à da própria sobrevivência?
Agora, enquanto caminho em direção à minha morte certa, entendo tudo.
Um passo.
Dois.
Três.
Sequer escuto o bater dos meus pés no chão. Talvez por isso eu precise contar as passadas.
Seis passos.
Sete.
Empaco.
Escuto.
Minhas mãos pararam de tremer no instante em que decidi atravessar a porta; é só esse suor teimoso nas palmas que me incomoda. Mas é um incômodo ridículo, sem propósito.
Dezoito passos.
Meu coração ainda trai uma falta de ritmo vergonhosa que me deixa saber que, sim, sinto medo, mas tenho certeza de que meu rosto... bem... quem se importa?
Vinte e dois passos.
Já está na hora.
Vinte e três.
Inalo.
Vinte e quatro.
Exalo.
Vinte e cinco.
Vinte e cinco e meio, ou o passo que permitiu que meus dois pés ficassem lado a lado.
Tanto faz.
E quando digo tanto faz, é tanto faz mesmo.
Não me resta mais nada, nem o medo da morte.
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Personagem que, do nada, entrou na minha cabeça, e eu não quis deixar lá: joguei no "papel".
O nome dela é Sânia, e eu já a amo como se a conhecesse desde criancinha.

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