Vergonheira universal - Escritora B. Pellizzer

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Vergonheira universal

 

Acho que quase todos vocês aqui sabem, mas eu cultivo uma certa antipatia por câmeras. Tenho até medo delas. O que vocês talvez não saibam é que eu sou especialista em passar vergonha. Se tem uma vergonha esperando pra ser passada num raio de 10 quarteirões, ela vai me achar. Sabe a pessoa que bate a cara em portas de vidro; sai com pena de travesseiro no cabelo; tem um pedaço de tomate perdido no sutiã pronto pra cair no meio de uma palestra?

Essa pessoa sou eu.

Então, quando estou diante de uma câmera, a probabilidade de eu passar vergonha deixa de ser probabilidade.

No último abril, inclusive, fiz isso com uma competência invejável.

 

Havia sido convidada por uma amiga a gravar um vídeo para um evento colaborativo online falando sobre como desenvolver a criatividade.

 

Como tudo o que eu não gosto de fazer, eu comecei a trabalhar no vídeo assim que falei com ela, porque se eu encontrasse a primeira desculpa para adiar, eu sabia que não faria. Então fiz o roteiro e gravei durante o dia, com luz solar, durante três dias. Quase oito horas de gravação para extrair meia hora de vídeo aproveitável. Daí editei.

 

Ficou passável.

 

Eu tinha feito uma coisa fora da minha zona de conforto e não tinha passado nenhuma vergonha.

 

Uh-huuuu!

 

Vídeo guardado para quando chegasse a hora de subir para a plataforma, segui minha vida e, num fim de semana desses aí, saí tomar café com um amigo. Meu telefone estava com problema de sinal, e esse amigo sugeriu que talvez o problema estivesse no aparelho e não na operadora. Como eu já andava com problema de sinal havia uns dois meses, cheguei em casa e formatei o celular. Assim de fácil. Todos os meus arquivos ficam na nuvem, não me preocupei.

 

Claro que vocês já adivinharam qual porcaria de arquivo não estava na nuvem.

 

Era muito grande!

 

O fato é que eu só descobri que não tinha mais o arquivo na véspera do prazo final de enviar o arquivo para a plataforma. E o trabalho que eu tinha levado uma semana pra fazer precisaria ser refeito em um dia.

 

Primeiro, perdi umas horas procurando o vídeo original porque eu não acreditava que tivesse sido tão rematadamente estúpida a ponto de perder aquele vídeo; quando saí da negação, resgatei o roteiro do vídeo que estava na minha caderneta, escrito à mão; acarpetei a minha cara com corretivo pra esconder as olheiras e, no fim da tarde, comecei a gravar o vídeo iluminada por uma lanterna de celular. Foram quase três horas de gravação, que eu deveria transformar em meia hora.

 

Mãos à obra.

 

Quando terminei, coloquei pra renderizar com aquela sensação de dever cumprido. Não tinha ficado exatamente bom, mas não estava ruim o suficiente pra me fazer passar vergonha.

 

Uh-huuuu!

 

Enquanto esperava, recebi alguns amigos de passagem pela cidade que, quando souberam que eu havia gravado um vídeo inteiro, quiseram ver (claro!).

 

Foi quando eu percebi.

 

Lá estava ela: a vergonheira.

 

Eu havia ficado tão preocupada em esconder as olheiras da cara e com o conteúdo do vídeo, que não cogitei a necessidade de trocar de roupa. Geralmente eu nem sei o que tô vestindo.

 

Se estou confortável, tá tudo bem pra mim, e eu estava muito confortável.

 

Acontece que minha blusinha de tricô tinha mais furos que o depoimento da Flordelis. Dois deles ficavam embaixo dos braços. Sabem aquele sovaco descosturado? Pois é... E eu adoro movimentar os braços. Pra cima, pra baixo, pros lados.

 

Duas coisas aconteceram naquele fim de semana: 1) a gente fez o jogo da bebida virando uma dose de Montilla cada vez que que um furo aparecia na minha blusa no vídeo de três horas; 2) eu descobri que sou capaz de editar um vídeo de ressaca.

 

Com mais algumas horas de trabalho conseguimos reeditar aquelas três horas de vídeo para que ficasse à prova de furo. Ahahahahahaha. Não que os furos não aparecessem, mas a gente tentou fazer de um jeito que, quem assistisse, não prestasse atenção. Claro que, quando a ressaca passou, e eu já tinha enviado o vídeo, descobri que não tinha jeito. Os furos estavam lá.

 

Pensei até em tirar vantagem da vergonha (já que não tinha mais jeito) e fazer um concurso cultural na página: quem encontrasse mais buracos na blusa entraria no sorteio para um exemplar impresso de “A fúria de Hannah”.

 

Mas, no fim das contas, eu estava tão fora de sintonia naqueles dias que nem me lembrei de divulgar o vídeo. Na minha cabeça, o dia do evento era num sábado, mas quando chegou o sábado, descobri que o evento tinha sido na quarta, e eu não havia divulgado o vídeo.

 

Já não havia mais nada que eu pudesse fazer. Vida que segue.

 

Acontece que amanhã, dia 25/05, vou participar da minha primeira live de Instagram.

 

E a pessoa que vai promover a live, é justamente o puto do amigo que, durante o café, involuntariamente me deu a ideia de formatar o celular, senhor Leo Bogo.

 

Isso quer dizer, senhoras e senhores, que a Lei do Carma, a Lei de Murphy, o Fatalismo e minha capacidade infinita de passar vergonha serão todos colocados juntos e testados ao mesmo tempo.

 

Se você tem Instagram, desconecte-se depois das nove horas da noite, no dia 25/05.

 

Mas se além de Instagram você também tem coragem, siga o perfil do @leobogo. A live será às 21:12.

 

E que Nossa Senhora da Não-Passação de Vergonha nos ajude!  

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