Último beijo - Escritora B. Pellizzer

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Último beijo




Ainda me lembro de nosso último beijo. Ele me assombra com um fantasma, me persegue, me acossa. Às vezes, amanheço pensando nele. Lembrando-me dele.

Foi só um beijo.

Se eu soubesse que seria o último... ah, não é bom nem pensar.

Porque, quando eu penso, eu já me lembro daquela última fechada de porta, sua mão na minha cintura, seus lábios na minha testa: “Tenho que ir, ou vou perder o ônibus”, e aquela olhada pelo vão entreaberto.

Você do lado de fora.

Eu do lado de dentro.

Eu sei que durou um átimo de sei lá que unidade de medida de tempo, mas sei que foi muita curto. Uma piscadela. Mas, nas minhas memórias, eu consigo perceber todas as coisas nesse átimo. A sua mão direita puxando o trinco da porta, as pontas da gola da sua camisa polo viradas para cima, seus jeans de um azul-claro que eu adorava ver em você, principalmente com aquela camiseta branca; o pé direito, calçado com aquele tênis branco cujo cadarço você havia ajustado tão meticulosamente alguns minutos antes...

Antes do último beijo.

Talvez, se eu soubesse ser o último beijo, a última vista, o último cheiro, eu tivesse segurado aquele trinco e saído ao seu lado. Os dois do lado de fora. Transformado aquele beijo em penúltimo, ou até em antepenúltimo se o ônibus se atrasasse.

Teria passado mais tempo no último telefonema depois daquele beijo; teria até respondido àquele último e-mail que está na minha caixa de entrada até hoje. Outro fantasma que me assombra. Outro pedaço de você para se juntar às minhas memórias, fotografias e perguntas.  

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