Escritora B. Pellizzer

sábado, 12 de junho de 2021

Enamore-se

junho 12, 2021 0
Enamore-se

 


É prerrogativa dos romances que o destino deve ser o responsável pelo encontro. Por isso estamos sempre procurando pelo amor ao mesmo tempo que fingimos procurar por nada. Ansiamos pela alma-gêmea, mas não queremos ter de buscá-la. “Ser for pra ser, será”, dizem os crédulos, os conformados, aqueles que colocam sua fé no destino e nas linhas tortas que serão preenchidas por Deus.

 E a gente passa o Dia dos Namorados olhando para flechas de cupido, esperando que alguma que se perca e nos atinja para que se cumpra a sina; e sonhamos com os corações que flutuam e nos conduzem para aquele lugar mágico onde dizem que nosso coração deve descansar.

 Ao final do dia, sem nada que nos acerte o peito, repetimos o mantra “quando for pra ser, será”, e descansamos naquele lugar reservado para os sonhadores: o lugar que leva a lugar nenhum.

 O encontro das almas não tem a ver com destino, tem a ver com escolhas.

 Quer ainda esteja procurando, quer pense já ter encontrado, eis o que NÃO desejo para seus corações:

 Não desejo o mergulho mágico nos olhos do outro, aquele momento em que você SABE que encontrou a pessoa certa;

Não desejo que seu coração bata mais rápido, que sua pele se arrepie, que seu estômago se revire como se estivesse cheio de borboleta.

Não desejo que sua mão trêmula e suada roce ansiosamente outra mão trêmula e incerta.

 Não.

 Isso é coisa dos livros, dos filmes, das músicas. O amor de destino, de medo, de incerteza é prerrogativa dos artistas e das artes; é prerrogativa da terra dos sonhos irrealizáveis.

 O que SIM desejo, todos os dias, é que você se enamore.

 Que se enamore completamente e segure firmemente a mão de alguém, e escolha segurar essa mão para não cair e para evitar que esse alguém caia; que o seu coração permaneça calmo, com a certeza de estar perto de alguém que não será levado pelos ventos do destino para qualquer outra parte; que os olhos que mergulharem nos seus não sejam labirintos, mas claras piscinas de água transparente onde você possa enxergar o fundo e saber exatamente onde está pulando.

 Mesmo que esse alguém seja você mesmo, ou você mesma.

 

Feliz Todos os Dias de Amor.


quarta-feira, 2 de junho de 2021

junho 02, 2021 0

 

foto da escritora B. Pellizzer com um olho delineado e outro sem maquiagem

Aí a escritora acorda cedo para deixar as crianças na escola. Ela tem uma reunião às sete e meia, então mete um corretivo e um pozinho na cara para fingir que não está cansada, e um delineador para fingir que está maquiada.
O delineador está ressecado e, enquanto ela pensa que deve aproveitar a saída e comprar um novo delineador, uma ideia incrível para as história que está escrevendo se materializa.
O que ela faz?
Quem também é escritor sabe: ela larga tudo e vai anotar a ideia antes que fuja.
Pois é, a ideia não fugiu, mas eu fui até a reunião com apenas um olho delineado, porque esqueci de fazer o outro.
Se passar vergonha fosse um esporte olímpico, senhoras e senhores, eu seria medalhista, e meus recordes jamais seriam batidos.
Agora vou ali colocar em texto a ideia que causou isso. "Ah, mô...!!!" tá quase, quase.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Ah, mô...!!!

maio 31, 2021 0
Ah, mô...!!!

 

Ah, mô!!! escrito em vermelho com fundo preto

Porque eu sei que vocês amam contos e crônicas, meu primeiro lançamento em português de 2021 será assim: de histórias curtas.
E não vou brincar disso sozinha não, tô brincando com um super cronista carioca que eu sei que vocês também amam.
Daqui a uns dias, conto.
Ah, mô...!!!
Toda história tem três versões: a minha, a dele, e a minha de novo, porque sou a dona da verdade, cacete! 😂😂😂
Impresso e digital.
Vocês não perdem por esperar.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Espelho da Vida

maio 27, 2021 0
Espelho da Vida

 

Espírito de mulher flutuando sobre o corpo físico deitado em uma cama

Na hora da morte, é preciso que haja ao menos um espelho em frente para que a gente não se sinta terrivelmente só.
Para que a gente possa se mirar durante a agonia e ensaiar a cara post mortem que mais combine com nosso melhor traje. Aquele traje de domingo com que gostaríamos de ser enterrados.
Um espelho em que a gente possa apreciar a beleza do sofrimento e eternizar, na retina, a última expressão de dor. Aquela que será contínua, aquela que será eterna. É com essa cara de dor que chegaremos ao paraíso.
Um espelho que duplique o adeus e, de certa forma, prolongue o viver, sendo o duplo de nosso ser moribundo. Espelhos múltiplos para multiplicar o pouco tempo de vida que nos resta.
Um espelho por onde nossa alma descarnada possa se mirar e, quem sabe, num átimo, decidir voltar para o corpo morrediço.
Um espelho em que a gente possa ver além de nós mesmos e, antes daquele último suspiro, agarrar o cordão de prata do espírito, que se distraiu com a própria imagem, e puxá-lo de volta para aquela que deveria continuar sendo sua única morada.
Ou talvez, usar o cordão de prata ao redor do pescoço.
Primeiro, como adereço. Para ficar melhor na foto do velório. Depois, como instrumento a fim de abreviar a dor.
Causa da morte: enforcamento pelo cordão de prata da própria alma.
Poderia isso ser considerado suicídio?
Se assim for, que haja, no Umbral, outro espelho para que não tenhamos que encarar nossos espíritos semelhantes.
Que a frequência umbralina habitada por nós, da Irmandade do Suicida do Cordão de Prata, seja uma casa de espelhos onde nos miremos enroscados pelos cordões de prata de nossos espíritos, e estes, pelos cordões de prata de seus próprios espíritos, até que a última célula prateada seja eliminada e jogada no umbral do umbral do umbral de um universo infinito multiplicado por tantos espelhos.
Na hora da morte, é preciso que haja ao menos um espelho...
Mas que bobagem!
Na hora da morte, a gente sempre está só.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Vergonheira universal

maio 24, 2021 0
Vergonheira universal

 

Acho que quase todos vocês aqui sabem, mas eu cultivo uma certa antipatia por câmeras. Tenho até medo delas. O que vocês talvez não saibam é que eu sou especialista em passar vergonha. Se tem uma vergonha esperando pra ser passada num raio de 10 quarteirões, ela vai me achar. Sabe a pessoa que bate a cara em portas de vidro; sai com pena de travesseiro no cabelo; tem um pedaço de tomate perdido no sutiã pronto pra cair no meio de uma palestra?

Essa pessoa sou eu.

Então, quando estou diante de uma câmera, a probabilidade de eu passar vergonha deixa de ser probabilidade.

No último abril, inclusive, fiz isso com uma competência invejável.

 

Havia sido convidada por uma amiga a gravar um vídeo para um evento colaborativo online falando sobre como desenvolver a criatividade.

 

Como tudo o que eu não gosto de fazer, eu comecei a trabalhar no vídeo assim que falei com ela, porque se eu encontrasse a primeira desculpa para adiar, eu sabia que não faria. Então fiz o roteiro e gravei durante o dia, com luz solar, durante três dias. Quase oito horas de gravação para extrair meia hora de vídeo aproveitável. Daí editei.

 

Ficou passável.

 

Eu tinha feito uma coisa fora da minha zona de conforto e não tinha passado nenhuma vergonha.

 

Uh-huuuu!

 

Vídeo guardado para quando chegasse a hora de subir para a plataforma, segui minha vida e, num fim de semana desses aí, saí tomar café com um amigo. Meu telefone estava com problema de sinal, e esse amigo sugeriu que talvez o problema estivesse no aparelho e não na operadora. Como eu já andava com problema de sinal havia uns dois meses, cheguei em casa e formatei o celular. Assim de fácil. Todos os meus arquivos ficam na nuvem, não me preocupei.

 

Claro que vocês já adivinharam qual porcaria de arquivo não estava na nuvem.

 

Era muito grande!

 

O fato é que eu só descobri que não tinha mais o arquivo na véspera do prazo final de enviar o arquivo para a plataforma. E o trabalho que eu tinha levado uma semana pra fazer precisaria ser refeito em um dia.

 

Primeiro, perdi umas horas procurando o vídeo original porque eu não acreditava que tivesse sido tão rematadamente estúpida a ponto de perder aquele vídeo; quando saí da negação, resgatei o roteiro do vídeo que estava na minha caderneta, escrito à mão; acarpetei a minha cara com corretivo pra esconder as olheiras e, no fim da tarde, comecei a gravar o vídeo iluminada por uma lanterna de celular. Foram quase três horas de gravação, que eu deveria transformar em meia hora.

 

Mãos à obra.

 

Quando terminei, coloquei pra renderizar com aquela sensação de dever cumprido. Não tinha ficado exatamente bom, mas não estava ruim o suficiente pra me fazer passar vergonha.

 

Uh-huuuu!

 

Enquanto esperava, recebi alguns amigos de passagem pela cidade que, quando souberam que eu havia gravado um vídeo inteiro, quiseram ver (claro!).

 

Foi quando eu percebi.

 

Lá estava ela: a vergonheira.

 

Eu havia ficado tão preocupada em esconder as olheiras da cara e com o conteúdo do vídeo, que não cogitei a necessidade de trocar de roupa. Geralmente eu nem sei o que tô vestindo.

 

Se estou confortável, tá tudo bem pra mim, e eu estava muito confortável.

 

Acontece que minha blusinha de tricô tinha mais furos que o depoimento da Flordelis. Dois deles ficavam embaixo dos braços. Sabem aquele sovaco descosturado? Pois é... E eu adoro movimentar os braços. Pra cima, pra baixo, pros lados.

 

Duas coisas aconteceram naquele fim de semana: 1) a gente fez o jogo da bebida virando uma dose de Montilla cada vez que que um furo aparecia na minha blusa no vídeo de três horas; 2) eu descobri que sou capaz de editar um vídeo de ressaca.

 

Com mais algumas horas de trabalho conseguimos reeditar aquelas três horas de vídeo para que ficasse à prova de furo. Ahahahahahaha. Não que os furos não aparecessem, mas a gente tentou fazer de um jeito que, quem assistisse, não prestasse atenção. Claro que, quando a ressaca passou, e eu já tinha enviado o vídeo, descobri que não tinha jeito. Os furos estavam lá.

 

Pensei até em tirar vantagem da vergonha (já que não tinha mais jeito) e fazer um concurso cultural na página: quem encontrasse mais buracos na blusa entraria no sorteio para um exemplar impresso de “A fúria de Hannah”.

 

Mas, no fim das contas, eu estava tão fora de sintonia naqueles dias que nem me lembrei de divulgar o vídeo. Na minha cabeça, o dia do evento era num sábado, mas quando chegou o sábado, descobri que o evento tinha sido na quarta, e eu não havia divulgado o vídeo.

 

Já não havia mais nada que eu pudesse fazer. Vida que segue.

 

Acontece que amanhã, dia 25/05, vou participar da minha primeira live de Instagram.

 

E a pessoa que vai promover a live, é justamente o puto do amigo que, durante o café, involuntariamente me deu a ideia de formatar o celular, senhor Leo Bogo.

 

Isso quer dizer, senhoras e senhores, que a Lei do Carma, a Lei de Murphy, o Fatalismo e minha capacidade infinita de passar vergonha serão todos colocados juntos e testados ao mesmo tempo.

 

Se você tem Instagram, desconecte-se depois das nove horas da noite, no dia 25/05.

 

Mas se além de Instagram você também tem coragem, siga o perfil do @leobogo. A live será às 21:12.

 

E que Nossa Senhora da Não-Passação de Vergonha nos ajude!