Escritora B. Pellizzer

domingo, 17 de abril de 2022

Para meu moreno

abril 17, 2022 0
Para meu moreno


 

Então hoje é seu dia, meu amor...

Nem consigo lembrar de como era minha vida antes de você; não consigo imaginar como seria acordar pela manhãs, e não sentir seu cheiro.
És o único capaz de me tirar as palavras, ainda que, quando eu te sinta, consiga pensar em todas as coisas ao mesmo tempo, seja capaz de construir universos inteiros. Eu poderia erigir cidades em teu nome, começar e terminar guerras, atravessar o deserto solitário esperando como única recompensa a tua companhia.
Contigo, não importa quão maldormida tenha sido a noite, tua presença à mesa torna tudo mais simples; contigo, não importa o quanto o dia tenha sido complicado, porque quando te sinto escorregar para dentro de mim, forte e moreno, todo o resto deixa de ter importância. No universo inteiro, apenas existimos nós dois.
Te amo loucamente, café.

sábado, 19 de março de 2022

Oi, tudo bem?

março 19, 2022 0
Oi, tudo bem?

 


Oi. Tudo bem? Eu tô na correria, sem tempo pra pensar nas coisas, sem tempo até pra te ver. Muita coisa aconteceu por esses dias: o cachorro morreu, não sei bem por quê. De repente ele começou a salivar, e se escondeu, quando não atendeu meu chamado, achei o bichinho já duro e frio; enterramos ele embaixo da jabuticabeira. A jabuticabeira tá bonita, o tronco já está cheio de caroços e, daqui a pouquinho, a gente vai poder colher. Você devia passar lá em casa, sempre gostou tanto de jabuticaba... Pedi um aumento essa semana, meu chefe disse que vai “analisar”... Sei bem o que ele vai analisar... Acho que vou precisar de um emprego novo, porque as coisas ficaram difíceis no último ano. As crianças estão bem, sempre perguntam por você e, toda vez que digo que estou vindo te visitar, elas colhem uma flor colorida no jardim. Toma! É pra você. Ah! O João finalmente pagou aquele dinheiro que ele tava te devendo. Coloquei no bolso daquela calça jeans rasgada que você gosta tanto, assim não tem chance de você não encontrar, sabe... para o caso de eu não estar por perto quando você aparecer. Eu sei, eu sei... eu bem podia ter trazido o dinheiro comigo, mas é que eu não tinha pensado em te ver hoje, tá mesmo tudo muito corrido, mas eu estava saindo com o carro e ouvi aquela música..., sabe?..., lembrei de você e não teve jeito, tive que passar aqui, só deu tempo de as crianças colherem a flor. E eu tenho que ir embora logo, meu chefe... sabe como é... acabei de pedir aumento, então tô na mira. Nossa! Mas eu não paro de falar! É bem típico de mim querer falar só dos meus problemas. Desculpe. Como você está?
———
Ela encarou os olhos negros dele por uma vida, por todos os significados de vida, mas aqueles olhos negros não esboçaram emoção, e ela entendeu que, mais uma vez, não obteria qualquer resposta.
Usou as costas da mão para secar uma lágrima atrevida, beijou as pontas dos dedos e usou os dedos beijados para tocar o rosto estampado na foto da lápide. Quando deixou o cemitério, dirigiu com o som desligado, não queria que outra música a obrigasse a voltar.


sexta-feira, 11 de março de 2022

Ela é mulher

março 11, 2022 0
Ela é mulher

 Todas as manhãs, quando se levanta, não importa o tipo de sapato que calce, ela está sempre pronta para dominar o mundo.

E assim o faz.
Um sorriso por vez, uma criança por vez, um homem, uma outra mulher, uma batalha que parece perdida por vez.
E, às vezes, parece que lhe custam as partes do próprio corpo, então ela recolhe seus pedaços, tenta se fazer inteira, olha para as partes de si mesma enquanto tenta se reconstruir, e se pergunta se não seria melhor parar.
Desistir só por aquele dia.
Deixar um pedaço — só um pedacinho — para trás.
Mas ela não deixa. Ela nunca deixa. Mesmo que não saiba mais onde encaixar aquela parte de si que parecia tão importante quando saiu da cama, ela carrega junto consigo porque sabe que pode ser necessária para alguém.
Outro alguém.
Qualquer alguém.
Ao final do dia, da hora, da batalha, ela deseja o fim da guerra porque está cansada, mas a guerra nunca acaba.
E ela nunca desiste.
Tira os sapatos, deita a cabeça no travesseiro e recomeça tudo no dia seguinte.
Ela é uma mulher.
Ela precisa.
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domingo, 27 de fevereiro de 2022

Você

fevereiro 27, 2022 0
Você

Amo olhar pra você.  Assim, sem você perceber. Enquanto parece mirar o invisível. — No que tá pensando — pergunto. — Em nada — responde você.  E eu sei que esse é o tipo de coisa que se diz quando estamos pensando em tudo.  E é por isso que amo olhar pra você sem você perceber. Porque, por aquele momento, enquanto você pensa em tudo, eu só penso em você.

Amo olhar pra você.

Assim, sem você perceber.

Enquanto parece mirar o invisível.

— No que tá pensando — pergunto.

— Em nada — responde você.

E eu sei que esse é o tipo de coisa que se diz quando estamos pensando em tudo.

E é por isso que amo olhar pra você sem você perceber.

Porque, por aquele momento, enquanto você pensa em tudo, eu só penso em você.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Último beijo

fevereiro 17, 2022 0
Último beijo



Ainda me lembro de nosso último beijo. Ele me assombra com um fantasma, me persegue, me acossa. Às vezes, amanheço pensando nele. Lembrando-me dele.

Foi só um beijo.

Se eu soubesse que seria o último... ah, não é bom nem pensar.

Porque, quando eu penso, eu já me lembro daquela última fechada de porta, sua mão na minha cintura, seus lábios na minha testa: “Tenho que ir, ou vou perder o ônibus”, e aquela olhada pelo vão entreaberto.

Você do lado de fora.

Eu do lado de dentro.

Eu sei que durou um átimo de sei lá que unidade de medida de tempo, mas sei que foi muita curto. Uma piscadela. Mas, nas minhas memórias, eu consigo perceber todas as coisas nesse átimo. A sua mão direita puxando o trinco da porta, as pontas da gola da sua camisa polo viradas para cima, seus jeans de um azul-claro que eu adorava ver em você, principalmente com aquela camiseta branca; o pé direito, calçado com aquele tênis branco cujo cadarço você havia ajustado tão meticulosamente alguns minutos antes...

Antes do último beijo.

Talvez, se eu soubesse ser o último beijo, a última vista, o último cheiro, eu tivesse segurado aquele trinco e saído ao seu lado. Os dois do lado de fora. Transformado aquele beijo em penúltimo, ou até em antepenúltimo se o ônibus se atrasasse.

Teria passado mais tempo no último telefonema depois daquele beijo; teria até respondido àquele último e-mail que está na minha caixa de entrada até hoje. Outro fantasma que me assombra. Outro pedaço de você para se juntar às minhas memórias, fotografias e perguntas.